Silêncio Intransitivo
- Vitoria Carolini
- 5 de nov. de 2020
- 2 min de leitura

O bloqueio criativo é iminente, mas não é tão desgastante, quanto ver uma vítima em busca da sua justiça incessante. Sendo no final da audiência mais julgada que qualquer assassino, não tendo direito a defesa, apenas a ser humilhada enquanto o réu é solto por não ter tido prova de nada.
Mariana, Marina, Maria, Ana, Joana, Valentina. Seis de muitos nomes que se tornam vítimas e aguardam por uma justiça, que as deixam de lado. Sendo apenas consentido que o frio as consuma, restando apenas o medo de que um dia a vontade de viver suma por se sentirem sujas por algo que delas não foi culpa.
Do homem branco, rico e hétero, numa escala de 10 a 0, o quanto você acha que ele sai impune? Apenas o suficiente para que o povo nos pune, tendo a nossa imagem difamada e a vida escancarada.
Então, o país da cultura do futebol e do samba é reconhecido por sua cultura do estupro. Uma violência tão dolorida, que não há rima que explica os momentos de agonia, pois nenhuma mulher sabe o que é ter a liberdade de direito sobre o próprio corpo, pois acaba sendo violada por uma sociedade que a culpa por conta da saia.
Da jovem negra à idosa rica, da mulher indígena à menina da periferia, nenhuma passa despercebida e o medo daqueles olhares maliciosos se torna surreal, pois sabemos que se pudessem eles não se ateriam e iriam além do que imaginaríamos. Trocamos nossas roupas e tiramos a maquiagem, deixando de lado aquilo que mais amávamos para não sermos o fruto de mais um estupro.
No fim acreditamos que estamos avançando, mas a misoginia e o preconceito é o que está nos alcançando, pois o mundo contemporâneo acaba sendo só na data, porque na prática meninas e mulheres de todas as cores e classes morrem sem direito a nada.
Imagina, se a Mariana Ferrer que denunciou teve esse caminho, qual será o destino daquela mulher que ninguém deu ouvido?


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