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Uma máquina do tempo rosariense

Atualizado: 9 de jul. de 2021



"Vamos tomar sorvete naquela sorveteria subindo a praça do estudante", comentou a minha mãe, que instantaneamente me fez lembrar que já faria 7 anos desde a última vez que tomei sorvete na Padre Réus. As recordações desse momento ainda permanecem muito vívidas de quando eu saí do colégio para tomar sorvete e brincar na pracinha junto com a minha turma.

O mais engraçado é que depois disso dois colegas meus brigaram. Um levou chinelada e o outro um mata-leão e depois nunca mais tivemos a oportunidade de sair da sala para uma atividade diferenciada — ai ai, falar da mãe nunca tinha dado tanto problema quanto dessa vez.

Uma coisa que me intriga é como pude me esquecer do sabor desse sorvete. Talvez o tempo não favoreceu essa lembrança e ontem ao tomar, segundos os próprios proprietários, "o sorvete que mais sai da sorveteria" pude sentir como se tivesse viajando não só para 2012, como também para 2000... e até para 1980. Como uma máquina no tempo a casa azul de sorvetes caseiros nos leva para a época que não havia celulares para mandar emoji de coração para quem a gente ama. Uma época em que namorados se olhavam enquanto saboreavam o doce do amor com recheio gelado de doce de leite. Cadeiras de plástico estilo anos 1990, fotos enquadradas dos filhos formados demonstrando orgulho por suas conquistas, pequenas samambaias penduradas na parede e até uma placa "a natureza agradece" são características nostálgicas do lugar que só de ver e de poder ter a oportunidade de frequentar um lugar assim traz a tona sensações que engrandecem pequenos momentos que o dinheiro não paga. Uma nostalgia inexplicável, pois explica uma era em que nem eu mesma pensava em existir. Como eu sabia que meus pais não iam juntos há tempos no Padre Réus, convidei-os para sairmos a noite e tomarmos algo refrescante. "Quanto é o sorvete lá?" indagou ele, obviamente houve a famosa reclamação após saber o valor para provar o céu e logo concluo que o rosariense (como comentei com eles) é um bicho engraçado, pois preferimos gastar 200 reais em gasolina e viajar para Santa Maria para aproveitar um gelatto italiano sob a desculpa que de "é bom, vale o preço" ao invés caminhar um pouquinho e desfrutar um dos poucos lugares de lazer que Rosário pode oferecer, só porque é "muito caro para um sorvete". Causas que vão gerando consequências são tipo as pessoas que vão desistindo de seus lugares pela monotonia que vai se agregando as suas peles. Deixam de enxergar, aproveitar e sorver o que lhes são dados nem as mínguas, mas em abundância.

Talvez tudo que é fácil demais deixa de ter a graça e infelizmente Rosário anda assim. Avanços de um lado, retrocessos de outro. Não sabemos aproveitar o mínimo do que é bom, urbanizamo-nos a fim de imitar as grandes metrópoles sem o mínimo de consciência que não somos capazes de usufruir desses meios. Um simples sorveteria artesanal fecha para abrir uma franquia como árvores caem em toras secas para abrirem espaço a uma avenida que se encherá no mais estúpido calor. Tudo isso porque nós caímos na rotina de reclamar e de não viver a vida a como nos é dada.

 
 
 

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