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As festas da minha vida


2020, dois mil e vinte, era o ano.

Tenho problemas com números, talvez eu seja um pouco fixada com eles. Aritmomania? Traumatizada? Não sei, só sei que achei que esse ano seria perfeito pela sua harmoniosa simetria. Pensei em mudar de vida, ser outra pessoa, ser a Carolini que sempre quis ser (meu nome é Vitória Carolini), mais sociável e extrovertida.

A minha primeira oportunidade foi uma promoção no Instagram, que basicamente funcionava como: quem mais comentasse e marcasse mais amigos na imagem oficial ganhava umas “aniras” — nome que dei para aquelas Skol Beats 150 BPM —, um caderno personalizado e — a melhor parte — um ano de entrada grátis para a festa que estava sendo promovida. Engajei naquilo como se a minha vida dependesse disso, marquei todos os meus amigos na foto pelo menos duas vezes ao dia e chegou o dia do sorteio.

(Música de suspense.)

Ganhei a promoção e tudo aquilo que tinha direito. Finalmente poderia começar a minha vida universitária como a tal Carolini, chamei uns amigos para irem comigo na festa e ninguém pôde… Haveria outras oportunidades para festejar, né? Descansei um pouco, já que a semana foi corrida e não fui nos trotes — saudades do Brahma que nunca fui.

Então veio a bendita segunda-feira, a cidade parou por conta do vírus quando todo mundo acreditava — inclusive eu — que a quarentena iria durar só quinze dias.

Até que passou alguns (muitos) meses, entreguei a minha alma ao Ensino a Distância e cá estamos em janeiro de 2021. Ainda não descobri o sabor das “aniras” e as festas da minha vida que perdi por conta da pandemia não foram poucas, mas também não foram muitas. Não me tornei e nunca fui aquela pessoa extrovertida que é convidada para duas festas todos os finais de semana, no máximo duas festas por ano com muita dificuldade para sair de casa.

A vida do introvertido não é fácil.

A pandemia não teve muito impacto na minha vida social, então o que seria perder um ano de festas, sendo que já estava de quarentena há quase 20 anos?! Pelo menos tive cuidado comigo e com aqueles a minha volta, ao contrário de outros que aglomeraram, furaram a quarentena — da qual nunca respeitaram — e que nunca pareceram conhecer os termos “saúde pública” ou “viver em sociedade”.

Será que essas palavras tem significados muito abstratos para as pessoas que não são do grupo de risco ou que não tem parentes que dependem dos cuidados de terceiros? Ou será que cinco copos de vodka com energético todos os sábados são muito mais importantes que as mais de duzentas mil mortes por complicações causadas pelo coronavírus no Brasil?

Enfim, eu nem queria mesmo aquelas “aniras”.

 
 
 

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